Artista, educadora e ciborgue

Uma família de minhocas de massinha sugeridas por Leon (criança real, nome fictício). Ele explica que os integrantes dessa família são um pai, uma mãe, uma tia, uma professora (como você, Juliana — diz), dois irmãos e ele. Leon tenta me incluir o tempo todo, já que eu entro em sua casa semanalmente nos últimos tempos. Ele tem 3 anos e passou metade de sua vida em pandemia. Penso no que é isso e nem sei o que dizer daquele corpinho potente e cheio de vida explorando sua casa e o que é possível, nesse contexto. Penso também em quantos infinitos deixaram de ser explorados no andar de suas pernas e passaram a frequentar muito mais a sua mente.

Enquanto corre, pula e explora a casa, Leon pede para a mãe me carregar para todos os lados para acompanhá-lo. Pois eu então sou carregada por sua mãe, como um frágil bebê retangular, ou uma cabeça gigante. Às vezes meu sinal se perde, às vezes minha bateria acaba, e aí a mãe tem que parar tudo e recarregar a minha energia. Na semana passada, Leon pediu para sua mãe direcionar a webcam do notebook até a minha vista para que eu pudesse assisti-lo se aconchegando nos braços dela enquanto ele ganhava muitos beijos. Uma mistura de afetos e intimidade compartilhada me fez sair desse encontro chorando muito, emocionada.

Agora sou uma artista-educadora com corpo retangular e espectadora das vidas de crianças cineastas, que escolhem cenários e ações para que eu assista e nos relacionemos a partir daquilo que elas querem que eu veja. E eu vejo tanta coisa. Vejo as belezas e horrores que elas querem me mostrar. Pois são muitas as belezas e também as tristezas que as horrorizam.

Agora, também, sou uma artista-educadora que não conhece os corpos físicos das novas crianças e famílias com quem eu tenho atuado. Minhas mãos de carne e osso acessam apenas comandos em botões, e não mais o que eu acessava antes. Mas apesar de parecer tudo um tanto sombrio, há uma poética gigantesca permeando essa nova prática. Demorou um tempo para que eu pudesse compreender que, em meu novo corpo retangular digital havia, sim, impedimentos, mas também assombros espetaculares. Tive que me acolher na frustração de meu corpo antigo querendo protagonizar uma ação que não mais lhe cabia naqueles bons e velhos moldes. Deu trabalho, mas saí do outro lado.

E sigo aqui estudando esse meu novo corpo. E não é que o meu corpo artista-educadora não mais exista em carne e osso, mas sim, nessa antiutopia em que vivemos, o que aconteceu foi que ganhei novos formatos e aparatos. Sou uma artista-educadora ciborgue, que assumiu novas ferramentas tecnológicas e propõe/aprende outras formas de nos relacionarmos. Estudo interessada toda essa novidade. E agradeço aos meus pares que me ouvem interessados, me ajudam e me animam e também a todos os adultos, crianças e adolescentes que tem apostado nessa investigação.

Artista visual, utilizando a educação como ferramenta e praticando encontros que tem a arte como mote em alguns lugares de SP . http://julianacordaro.com

Artista visual, utilizando a educação como ferramenta e praticando encontros que tem a arte como mote em alguns lugares de SP . http://julianacordaro.com