Brechas de amor em tempos sombrios

Beldroegão do quintal de Helena

Ontem o meu dia estava corrido.
E, apesar dos compromissos que se acumularam, a caminho de casa, decidi num ímpeto estranho entrar num portão que dava para um jardim escondidinho bem no meio de uma dessas grandes avenidas de SP.
E passei uma hora por lá conversando com o Rodrigo, o único funcionário que cuidava do jardim de um senhor “que tem mais jardins por aí vendendo plantas pra gente rica, fazendo as casas deles virarem tudo casa de revista de decoração”.
Nessa uma hora que ficamos ali juntos, não falamos das eleições e eu não virei nenhum voto, como seria de praxe um texto publicado por aqui a essa altura, pra nos dar esperança. Mas falamos de pitangueiras, lambaris roxos, costelas de adão, filodendros, crótons petra, primaveras, laranjeiras, limoeiros, terra, água e sol, sobre as plantas em canteiros que vemos pelas ruas quando caminhamos, sobre o que sentimos quando plantamos, quando as frutas nascem dos pés, sobre as flores que aparecem apenas duas vezes ao ano, a perenidade de outras tantas flores, sobre as digitais nos dedos serem quase escondidas pelo calejamento da terra e ferramentas nas mãos de Rodrigo, sobre eu saber de planta sem saber, assim, na intuição, sobre estudos que se faz vivendo as coisas na prática e sobre gentilezas de um encontro como aquele, com sorrisos nos nossos rostos do início ao fim.
Eu e o Rodrigo, vivemos ali um encontro de amor em tempos de cólera. Amor pelas plantas, pelo próprio encontro, por podermos conversar sem medo em tempos difíceis e gostarmos de estar ali juntos mesmo sendo estranhos, sem nem sabermos um do outro.
Não sei em quem Rodrigo votará. Mas sei que eu estava ali com ele falando daquele jardim que nos inspirava a falar da gente, porque estávamos inspirados pelo nosso encontro. E eu estava feliz por poder trocar e estarmos presentes de verdade nessa vida de tanta gente ao redor que nem se olha no olho.
Ainda que o perigo de o ódio estar sendo autorizado por um candidato esdrúxulo, entendi que amor pra mim, mais do que nunca, naquele momento dizia respeito às pessoas nas ruas se encontrando sem medo umas das outras. E entendi que havia tanto em comum entre mim e Rodrigo, assim como há entre mim e todo mundo. Há amor por saber do outro e de si. Há de haver. Eu sou amor. Não é possível não ser. Rodrigo era amor. Uma força maravilhosa amar gente estranha. Uma força maravilhosa ser mulher e não ter medo de não saber quem são as pessoas e, ainda assim, saber tanto de sermos humanos e isso por si só bastar para iniciar um diálogo, para iniciar algo. Há de bastar.
Se Rodrigo votar em B., eu sei que será mais um voto a reforçar uma tragédia anunciada, mas nessa altura do campeonato, também sei de Rodrigo, e Rodrigo soube de mim. Penso que se B. infelizmente ganhar, talvez seja essa a ação mais importante: saber do outro, nas ruas, em encontros. Nos espalharmos pelas cidades sabendo das pessoas. Há algo de imensa força em ver e ouvir o outro. Cuidar de amigos e dos nossos é sim urgente, mas também cuidar dos encontros fortuitos, nos elevadores, taxis, pontos de ônibus, filas de banco, quando houver abertura. Em tempos de guerra, todo cuidado é pouco, mas todo o cuidar será fundamental.
Me despedi de Rodrigo dizendo que se eu continuasse ali, a inspiração seria tanta, que eu seria capaz de transformar a minha vida numa floresta. Ele sorriu. Já somos floresta. Somos floresta escura e densa. Dá medo, se olharmos a floresta de fora. Mas é lindo ser floresta olhando de dentro. Eu e o Rodrigo, vivemos ontem uma história de amor de dentro das nossas próprias florestas. Eu só queria dizer isso. Porque olhar a vida por aqui, nas nossas telas retangulares, tem feito todo mundo sentir no corpo que o mundo tá foda e tá dando medo. E tá foda sim, mas também tem as brechas de amor que a gente cria intuitivamente. E mais do que nunca precisamos olhá-las. Somos floresta densa e escura, mas lá de dentro dela, dá pra se ver as frestas do sol, se encontrar e conversar sobre os nossos jardins.

Artista visual, utilizando a educação como ferramenta e praticando encontros que tem a arte como mote em alguns lugares de SP . http://julianacordaro.com