Nesses anos todos trabalhando com arte e pessoas, percebo que a coisa mais importante de todas é o encontro. Prezo muito pelo movimento de alguém que sai de sua casa, escola e trabalho para ir a um ateliê. Mas o que as pessoas querem fazer num ateliê? O que pode um ateliê? Muitas e muitas vezes, incansavelmente, pergunto aos que ali estão: o que vocês estão fazendo aqui? Sempre que é preciso chacoalhar um pouco as certezas que tornam os lugares confortáveis o suficiente para esquecermos onde estamos e o motivo de termos saído de nossas casas, escolas e trabalhos para irmos a um lugar que só se faz necessário porque assim quisemos que ele fosse. Ainda bem, pois lugares necessários, ao meu ver, são aqueles que jamais serão obrigatórios.

Eu nunca estive num ateliê “de brincadeira”. Estou sempre inteira — às vezes despedaçada, doente, cansada ou mesmo atravessada, mas estou ali. E os exercícios de presença que proponho aos participantes, as perguntas sérias que faço, são feitas para as meninas e meninos assim como as faço para mim o tempo todo. Estar inteira em algo exige que revisemos sempre se queremos mesmo estar ali bem onde estamos. Exige sermos verdadeiros inclusive para buscar ajuda, caso queiramos estar ali de verdade, mas esteja muito difícil de se estar, como muitas vezes acontece. E as crianças ajudam. E os adolescentes e jovens, ajudam também.

Outra condição fundamental para se estar num ateliê como artista recebendo pessoas interessadas em construir vontades: a gente não precisa saber de tudo. A construção dos assuntos do mundo, das ideias e vontades, o sentido deles, quando se trata dos encontros, se faz nele próprio. Construir incessantemente o que se vive ali, mesmo que dê muito trabalho. E experimentar, se dar o direito disso. E investigar a fundo como se fosse a coisa mais importante do mundo o ato de se debruçar diante de algo que surgiu por alguma vontade. E estar atento às pistas, internas e externas. E construir um sistema visual que desvende a você a sua própria estética. E deixá-la ganhar vida própria, e que ela fale por você. A construção de ateliês, tem disso. Um ateliê nunca está pronto por si só: depende da sua vontade em criá-lo e recriá-lo com a constância de sua visitação e curiosidade.

Encontrar a si e ao outro, entender coletivamente o que somos, o que sou eu e o que é o outro: não há importância maior do que isso nos assuntos de se estar no mundo junto com as pessoas. Minha busca pessoal sempre foi essa e, assim, levo aos ateliês essa noção, esse sentido de nos encontrarmos. Me parece uma herança muito valiosa, apenas porque é o que de melhor eu posso dar para alguém. Esse encontrar. Que pode ser com o outro, consigo, com uma ideia, com possibilidades, com a surpresa, com saídas, com as novas relações com o mundo e suas coisas, infinitas coisas. Encontros são tão bonitos e exigem tanto. Às vezes cansam, às vezes parecem não serem possíveis, outras vezes, é tudo o que queremos. As fotos abaixo, são daqueles momentos em que eu, com essa mania do celular em mãos para registrar as lindezas do que eu vivo, consegui capturar. São alguns dos tantos encontros que dão sentido para as coisas a que muitos chamam de arte-educação. Eu mesma, não entendo o mundo ser possível sem ateliês, tanto os internos, aqueles que temos que construir para legitimar nossa existência, quanto os de parede, telhado, porta e janela.

Que nesses tempos de isolamento e impossibilidades, recriemos ateliês em nós mesmos. Porque é mais do que necessário nos encontrarmos.

Um dia, no ateliê, assisti Ana Julia contar para Luiz Felipe que queria que eu fosse a professora de sua escola, pois me considerava uma boa professora. E Luiz Felipe então disse a ela que eu não era professora, e que ali no ateliê, todos nós éramos professores e estudantes porque todo mundo ali tinha algo para ensinar e aprender. Éramos artistas. Pronto. Depois daquele dia, eu pude dormir tranquila porque a ideia principal eu tinha conseguido passar. Ou melhor: nós tínhamos conseguido construir. Juntos, nos encontros.

Artista visual, utilizando a educação como ferramenta e praticando encontros que tem a arte como mote em alguns lugares de SP . http://julianacordaro.com

Artista visual, utilizando a educação como ferramenta e praticando encontros que tem a arte como mote em alguns lugares de SP . http://julianacordaro.com