Das minhas janelas avisto um casal de gaviões carijó descansando em cima da antena de celular da avenida principal. Não sei se é possível descansar, para quem tem a sina imponente e bonita de ser um gavião. Gaviões caçam, voam, fazem ninhos, cuidam do ninho, espreitam, observam, se reproduzem, cantam (parecem gatos acuados quando cantam). Tudo faz sentido na vida de um gavião, a ponto de eu achar que eles não descansam. Descansar desinteressadamente é ideia de ser humano, penso. Gaviões param até a próxima necessidade, que acontece sem que eles precisem justificá-la. “Gaviões dormem porque isso é uma necessidade”, justifico em meus pensamentos.
Eu avisto esse casal e julgo que seja um macho e uma fêmea, e também julgo haver um ninho, pois seus movimentos, avistados daqui do meu binóculo-de-observar-os-visitantes-que-chegam-pelas-janelas, assim me fazem entender aquele acontecimento. Observo por seis janelas: quatro janelas de concreto, esquadrias e vidro e outras duas de carne, fibras de colágeno e elastina que cobrem a córnea, a esclera e tudo o que contém de complexo demais e também maravilhoso nessas nossas janelas portáteis e pessoais.
Minha observação me leva até aquele casal. Vejo da janela da cozinha, depois da área de serviço, depois do quarto e, por último, entro no banho e, por uma fresta da janela basculante do banheiro, os observo. Me pergunto até quando seus repousos naquela antena me darão aquela mirada. Me distraio lavando os cabelos e, quando torno a olhar, eis a resposta: um deles se foi. A outra — que considero ser fêmea — está ali parada me deixando notar seu perfil. Um bico bonito de quem tem no desenho de sua boca-ferramenta a sina das aves de rapina. Algumas penas se eriçam nela porque há vento. Ela está menos bonita do que o macho, avistada daqui, mas é maior e mais imponente. Não voou como o outro. Cuida do ninho? Brigaram? O macho se assustou com algo e voou, mas ela não, pois não tem medo de nada? Talvez ele volte com uma presa no bico, já que ela cuida do ninho. Talvez volte e, vocalizando, avise-a de que há comida boa noutras paradas. Eles estão na Vila Sônia, e talvez haja comida no Jardim Trussardi. Penso que, se voarem para lá, que mandem um oi para a Helena, minha amiga-alegria-vizinha, que deve estar na rede em seu quintal. Voar faz toda a diferença, penso. Eu daqui também penso noutras coisas, como numas das mais maravilhosas invenções do ser-humano: monóculos, binóculos, lunetas, telescópios, microscópios, e toda a sorte de lentes que, acopladas às minhas janelas pessoais, me fazem alcançar tanta coisa, em conexões fantásticas de descoberta e reflexão. Com elas, saio de casa sem sair. Do micro para o macro e vice e versa. Quando eu tinha oito anos de idade, pedi de dia das crianças um binóculo amarelo. Vi muitas coisas bem de perto ajudada por aquelas lentes. Hoje, meu binóculo é semi-profissional, um presente que me dei e que foi como mais uma peça na construção de sentido para a minha existência, nessa falta de entendimento todo que é a vida.
Gaviões não descansam, mas repousam. Voam, pousam, depois voam novamente e, partindo de um voo inicial, re-pousam. Então pousar é início, re-pousar é o que se segue e repousar é a pausa. Eu, aqui nessa quarentena, não descanso também. Há muito o que pensar. E porque as janelas me dão asas, eu só repouso porque sei que há outras paradas. Meu corpo, além de ser casa, é ferramenta de conexão entre pousos e repousos. Ainda bem que a gente tem a si mesmo.

Artista visual, utilizando a educação como ferramenta e praticando encontros que tem a arte como mote em alguns lugares de SP . http://julianacordaro.com