Fazendo meu novo percurso diário de criação aqui de dentro de casa, entrei com a cabeça numa blusa de lã pendurada no varal e porque o sol tem batido muito forte nesse inverno paulistano, eu vi por entre os buracos da trama dessa blusa o meu trabalho das estruturazinhas que está nascendo ali bem na frente, na janela. Vi meu trabalho do jeito que eu imagino que insetos o enxergariam. E então, me vi aqui um pouco menos gente e talvez mais inseto. Pequena num mundo gigante e temível, como uma pisada de ser-humano, ou como o choque de uma raquetada elétrica. Me vi menos gente porque além das coisas temíveis, eu também tenho medo de muita coisa que eu não devia temer. Ter medo de coisas não-temíveis é um desperdício gigantesco, um ensaio sem fim para a velha tristeza confortável. Mas além desse pensamento esquisito que essa experiência gerou, me vi também com essa possibilidade de ver as coisas como um inseto em seus múltiplos olhinhos dentro de seu olho composto, enxergando em pedaços o mundo quebra-cabeças que eu tanto tento montar. Daí que uma abelha, resistindo à extinção de seu povo, passa por mim e me diz ao pé do ouvido: coragem.

Artista visual, utilizando a educação como ferramenta e praticando encontros que tem a arte como mote em alguns lugares de SP . http://julianacordaro.com

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