As crianças da manhã de sexta-feira lá no ateliê de Paraisópolis têm um ritual semanal lindo de, todas as vezes quando vou buscá-las para começarmos nosso encontro, elas entram sozinhas no ateliê, apagam as luzes e, assim que me dão o comando, entro devagar naquele espaço silencioso e escuro buscando por elas. Como parte do ritual, nunca as encontro. Mas aos poucos, anunciando a minha frustração por não encontrar nenhuma criança, vou ouvindo barulhos de bichos de todos os tipos: cachorros, gatos, cobras, sapos, cangurus, pinguins, peixes, bichos-preguiça, cavalos e dragões e, seguindo o som dos bichos, vou encontrando um a um, que vão saindo e se espalhando pelo ateliê até virarem crianças de novo para começarmos o encontro. Muitas vezes, eles não viram crianças com tanta facilidade, e já teve algumas vezes que fiz encontros com muitos tipos de animais criando e brincando por até mais de meia hora. Hoje, as crianças fizeram o mesmo ritual de sempre, mas dessa vez, elas entraram crianças, que viraram bichos e que então… viraram bebês. E eu fiz um encontro com 10 bebês no ateliê. Naturalmente, eu fui eleita a mãe de todos, e o Ruan Pablo, menino participante da turma, foi o pai que alimentou um a um. Ruan Pablo fez em mim o parto dos dez bebês. Eu, deitada numa cama feita de cadeiras, tive a minha barriga aberta (ele virou médico e escolheu fazer cesárea em mim) e debaixo da cadeira que ficava bem embaixo paralela à minha barriga, iam saindo os bebês que, ao nascerem, já saiam fazendo pinturas e desenhos e também chorando muito. Relatar o ateliê às sextas de manhã é quase como relatar um sonho desses fascinantes que às vezes a gente tem.

na imagem: eu e um dos bebês, por Felipe (7 anos)

Artista visual, utilizando a educação como ferramenta e praticando encontros que tem a arte como mote em alguns lugares de SP . http://julianacordaro.com