Sobre armas, uma menina e ser mulher

bazuca para destruir pesadelos, por R.

Um dia no ateliê uma menina de oito anos fez uma arma. Assim que terminou de construir sua arma de rolo de papel toalha enrolado em fitas de embrulhar presente com gatilho e empunhadeira de tampa de produtos de limpeza, saiu pelo ateliê atirando em seus alvos imaginários. Pensei uma, duas, três vezes sobre aquela cena, sobre o tema que surge algumas (poucas) vezes, de se construir uma arma no ateliê, sobre a violência, sobre os meninos que raras vezes me pedem para fazer armas e eu sempre pergunto pra eles o que é fazer uma arma, porque por mais que sejam crianças brincando, eu sou uma adulta, a orientadora do ateliê que assiste em todos os sentidos aquelas experiências, e eles estão lá trocando comigo, sob minha orientação. E por mais que eu ache que armas sejam uma criação de desgraça para a/na humanidade, uma vez criadas, em contextos de opressão (e em contextos artísticos), armas são para mim também um símbolo da luta dos oprimidos. Mas estamos falando de crianças, e não de mim.

As crianças no ateliê são convidadas sempre a refletirem sobre suas produções e os contextos em que nos encontramos. Uma vez refletido, podemos lidar com qualquer produção, podemos lidar com o outro, podemos lidar com o coletivo e com as situações com as quais nos deparamos. Então, preciso deixar claro com eles o que é fazer uma arma para cada um, sem que haja repressão, mas para que haja reflexão. É extremamente difícil e eu várias vezes me deparo com esses momentos que exigem tanta delicadeza e muito “pensa-rápido-juliana” para não estragar tudo de uma hora pra outra.

Depois de pensar muito (e rápido), cheguei até a menina e perguntei o que ela tinha produzido, como sempre pergunto. E ela me respondeu que tinha feito uma bazuca pra se defender sozinha de seus medos. Uma menina que – eu sei – tem uma série de questões sérias de violência para lidar.

Ao ouvir sua explicação, aquela arma fez todo o sentido como forma de expressão artística e, para quem preferir, como forma de expressão infantil. E ela então prosseguiu atirando com sua bazuca para o imaginário, dentro do ateliê. Os meninos e meninas ali presentes, entenderam o poder daquela bazuca destruidora de medos e continuaram suas produções artísticas, cada um na sua, vez ou outra dando uma olhada com admiração para aquela menina matando medos. E só uma bazuca de rolo de papel mesmo, pra dar conta das coisas que ela queria destruir.

Penso que nesse contexto, o sentido de produzir com suas próprias mãos um objeto para dar vazão aos seus receios, sentir-se potente e capaz, criando sozinha um objeto que simbolicamente dê conta de suas dores e ressignifique o sentido do que é ser uma menina no Brasil, me parece mais importante. Então, nesse contexto, uma bazuca matadora de medos é um recurso muito significativo. E artístico.

E vendo a foto dessa garota incrível e sua bazuca, me volto aqui para expressar o meu desejo de que todas as mulheres, assim como a menina no ateliê, sejam capazes de produzir suas próprias bazucas matadoras de medo. E que as mulheres, num futuro próximo, não precisem mais de bazucas matadoras de medo. Que não precisem mais sentir medo por serem mulheres.

#respeitaasmina #8m

Artista visual, utilizando a educação como ferramenta e praticando encontros que tem a arte como mote em alguns lugares de SP . http://julianacordaro.com

Artista visual, utilizando a educação como ferramenta e praticando encontros que tem a arte como mote em alguns lugares de SP . http://julianacordaro.com